PODEMOS SER MAIS QUE O NOSSO ÚTERO?

“Tota mulier  in uter: é uma matriz” assim, nas primeiras linhas, começa o livro de 1945 de Simone de Beauvoir. 
Ela trás um questionamento (pra não citas outros aqui)  que carrego comigo desde muito cedo, mas antes de chegar neste ponto, vamos continuar neste assunto. Beauvoir cita, mesmo que brevemente, como essa afirmação de: mulher = utéro. Poderia ser totalmente verdadeiro, se já naquela época existia o contra posto de mulheres se dominando mulheres sem terem úteros. E essas mesmas mulheres eram julgadas severamente pela sociedade.

Outra questão, era uma mulher, que se saísse do que a sociedade julga-se do que era ditado como “comum”. Já até tinham um livro destinado para elas. “Modern Woman: Lost Sex”.

Porém o parágrafo, vale um pouco de atenção aqui, foi o seguinte:

“ ‘ A fêmea é fêmea em virtude de carência de qualidades’, diz Aristóteles. 
‘Devemos considerar o caráter das mulheres como sofrendo de certa deficiência natural.’ E são Tomás, depois dele, decreta que a mulher é um ‘ homem incompleto’, um ser ‘ocasional’. (…) A humanidade é masculina, e o homem define a mulher não em si, mas relativamente a ele; ela não é considerada um ser autônomo. ‘A mulher um ser relativo…’, diz Michelet. E é por  isso que Benda afirma em Rapport d’Uriel: ‘O corpo do homem tem um sentindo em si, abstração feita do da mulher, ao passo que este parece destituído de significação se não se evoca o macho…O homem é pensável sem a mulher. Ela não, sem o homem.’ Ela não é senão o que o homem decide que seja; daí dizer-se o ‘sexo’  para dizer que ela apresenta diante do macho como um ser a sexuado: para ele, a fêmea é sexo, logo ela o é absolutamente. A mulher determina-se e diferencia-se em relação ao homem, e não este em relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o essencial. 
O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro. ” (BEAUVOIR, 1945).

Estamos à frente de séculos e séculos, gerações e gerações, e de diferentes sociedades, seguindo e repetido o mesmo padrão. E estão ditando o que é ser mulher, o que nos molda, e quais e o que são os nossos desejos, e qual é o nosso papel diante dele. Mas isso nunca foi produzido a partir do ponto feminino. Porque nunca fomos (e ainda não somos) eternamente e puramente livres para tal ato, des do início dos tempos, para se quer termos uma ideia do que é, ou seria ser uma mulher puramente.

Falando de mim, a minha questão, enorme na terapia, e principalmente quando era criança, é que sempre tive essa dúvida dentro de mim. Porque nós meninas, de uns 5/7 anos de idade sempre nos perguntávamos quando iriamos nós casar e quantos filhos iríamos querer ter, era realmente um debate entre crianças, enquanto olhava os meninos falando o que eles iriam querer ser quando crescer. Até que um dia eu constatei que eu também queria ser e não só ter alguém. E isso virou uma questão entre eu e meu grupo de amigas, e eu só tinha apenas 5/7 anos de idade.

Conforme fui crescendo a conversa mudou, as amigas mudaram, mas questão sempre continuou. Eu continuava querendo ser, mas o assunto do enxoval, casamento, e filhos sempre voltava em algum ponto da conversa. E me perguntava porque sempre tinha que ser só sobre isso para nós mulheres e não sobre ser um ser.

Afinal, esse “desejo” da maternidade é unicamente e pessoal da mulher ? Ou foi ensinado para nós? Da onde ele vem?

Numa sociedade que até então se não fosse pela um movimento que começou pelas sufragistas, a mulher nem teria se quer o poder de ter a guarda de seu filho depois do divórcio! Comecei a me questionar se no meio daquele momento de luta, o homens da época não viram uma brecha para si. Já que atualmente o problema mudou e “ganhamos” 5,5 milhões de crianças sem pai no registro e com o plus de pais ausentes. Beauvoir aponta isso em seu livro, que em um mundo formado por leis de homens eles só dão liberdades e vitórias para nós mulheres, onde e quando eles querem e desejam.

Olhando mais ainda para o passado, até mesmo para arte, onde podemos analisar as mulheres nos quadros, muitas vezes sendo retratadas na visão de pintore de forma angelical e intocada, essa era a mulher perfeita. A própria Eva de Adão. A santificada. A matriz. 

Tendo conhecimento desse mundo em que vivemos como podemos afirmar com absoluta firmeza que nossas vontades são totalmente nossas? A maneira de nos vestir e comportar são nossa? O nosso útero é nosso? Ou apenas somos uma “Tota mulier  in uter: é uma matriz”.

Será que com essa sociedade que temos, e com um quadro em que a desigualdade de gênero no trabalho só acabará daqui a 257 anos, vamos um dia, realmente conseguir saber o que é ser mulher?

“(…) a mulher não pode exterminar os homens. O laço que a une a seus opressores não é comparável a nenhum outro.” (BEAUVOIR, 1945).

PS: você mulher, leia Simone, leia mulheres.

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