narcos

Narcos estreou na última sexta-feira, dia 28 de agosto, no Netflix, e já tem a segunda temporada confirmada para o ano que vem. A série é produzida pelo diretor brasileiro José Padilha e traz Wagner Moura como Pablo Escobar, o narcotraficante colombiano que ficou famoso na década de 80.

Padilha repete a fórmula de Tropa de Elite 1 e 2 ao colocar o agente Murphy como narrador da história, então OBVIAMENTE (ou deveria ser óbvio) a perspectiva da história é de um agente estadunidense, e não uma homenagem a violência da polícia ou a do Estado. É bom frisar isso já no começo dessa resenha, pois a maioria das pessoas acredita que o primeiro Tropa de Elite é uma homenagem ao BOPE, quando na verdade é uma crítica bem irônica a esse grupo de extermínio institucionalizando. O Padilha teve que gravar o Tropa de Elite 2 para explicar isso.

Arte não tem obrigação de ser literal, nem o artista tem a obrigação de explicar o seu trabalho, mas pelo visto os diretores vão ter que começar a introduzir a plaquinha de sarcasmo do Sheldon (Big Bang Theory) para evitar confusões. Mas voltando ao Narcos … Brincadeiras a parte, eu acho que os diretores precisam começar a colocar um aviso no começo dos episódios, ou filmes, ou capítulos de novela que contenham cenas de estupro. Narcos tem uma cena bem pesada de estupro no segundo episódio aproximadamente do minuto 32:30 até 36:10. Digo isso porque esse tipo de cena as vezes funciona como um “gatilho” para quem já sofreu esse tipo de violência. Em 2013, o Brasil registrou mais denúncias de estupros do que de homicídios.

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A série começa com o agente do DEA (Departamento Antidrogas dos Estados Unidos), Stephen Murphy, vivido por Boyd Holbrook, explicando a época e o contexto da história, e tentando justificar suas ações para a cena que estamos prestes a assistir (como todo policial não é mesmo?).

Ele é transferido para a Colômbia para combater os cartéis dos narcotraficantes, que transformaram os Estados Unidos em um verdadeiro playground para venda de cocaína. Murphy se torna parceiro de Javier Peña, interpretado por Pedro Pascal.

E temos Wagner Moura como Pablo Escobar. Escobar nasceu pobre, era contrabandista antes de virar um dos maiores narcotraficantes de todos os tempos. Mesmo bilionário, dizia que era um pobre com muito dinheiro. A série retrata sua história na década de 80,  quando ele contrabandeava produtos como eletrodomésticos e se envolve no comércio das drogas, com a criação de diversos laboratórios na Colômbia e a exportação feita por meio de passageiros de avião. A genialidade da rede não é apenas de Escobar, seu primo Gustavo, interpretado por Juan Pablo Raba, é o principal articulador dos negócios do lendário Cartel de Medelin, que contava com outros traficantes famosos como os irmãos Ochoa, um deles vivido pelo brasileiro André Matos.

Murphy, Escobar, Gustavo e Peña

Murphy, Escobar, Gustavo e Peña

A Jana Rosa conseguiu sintetizar bem os meus sentimentos pelo Javier Peña/Pedro Pascal: “queria fazer um fórum sobre esse homem Pedro Pascal do signo de áries que como todo ariano vai te fazer sofrer mas você olha e diz KERO”.

É impossível não desenvolver empatia por Escobar. Ele é um psicopata, mas é um psicopata patriota e um “robin hood paisa”, construindo casas para os pobres da sua cidade. Ele não é um tipo de herói ou um modelo a ser seguido, mas ele acredita que pode mudar a Colômbia e se elege deputado, mas não é aceito pelos outros congressistas, o que inicia um guerra sangrenta e toda a discussão sobre extradição.

A série traz a violência tanto dos cartéis, quanto do governo colombiano e estadunidense. Entre o saldo de sangue de ambas as partes, quem sai perdendo é sempre o povo colombiano.

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Ao começar o primeiro episódio com “há uma razão para o realismo mágico ter surgido na Colômbia”, Padilha não estava brincando. Fã confesso de Gabriel García Márquez, ele mistura cenas reais da época com ficção para mostrar a história da construção do mito de Escobar e como ele manipulou um país inteiro, o que seria difícil de acreditar sem mostrar as imagens reais.

Narcos retrata muito bem a dinâmica falida da guerra às drogas, que deixa um saldo de milhares de mortos pelo mundo. Além de mostrar a paranoia estadunidense e sua selvageria com o comunismo, e o total desrespeito que essa nação possui com a soberania de outros países. Padilha conseguiu retratar muito bem a linha tênue entre o governo colombiano e o estadunidense. Ele também aborda um pouco (bem pouco mesmo) sobre os grupos guerrilheiros da época (e uma alfinetada no Pinochet), nessa primeira temporada temos o M-19, espero que ele traga as FARC na segunda temporada.

 

wagner

Não acredito em monogamia, mas casa comigo! <3

Sobre as críticas que o Wagner Moura recebeu sobre o seu espanhol, aparentemente o Brasil possui o maior número de especialistas em dicção colombiana, que ao invés de apreciar a obra preferiram analisar o sotaque do Wagner Moura. Nem os fãs mais fanáticos da Shakira são especialistas em dicção colombiana, façam me o favor né? O trabalho do Wagner como Pablo Escobar está impecável, sem sombra de dúvidas é um dos melhores atores dessa geração (desses que não dão declarações vexatórias de que não gostam de ler sabe?) e eu estou louca de ansiedade há dois anos esperando o filme dele sobre o Carlos Marighella. Meu coração não vai aguentar, amo o Wagner Moura e considero o Carlos Marighella um herói nacional. O choro é livre para todos os públicos.

“Eu voltei agora da Alemanha depois de lançar o Narcos em Paris, em Londres e na Inglaterra, e eu dizia especialmente aos jornalistas alemães que eu vou fazer um filme sobre um guerrilheiro, sobre a ditadura no Brasil. Eu disse que na Alemanha, embora eles próprios não achem isso, há uma relação psicologicamente muito mais saudável com o passado deles, com o holocausto basicamente (claro que houve uma proporção imensamente maior que a ditadura no Brasil). Nossa tendência na América Latina, especialmente no Brasil, é o esquecimento, é você dizer “deixa pra lá”. A lei da anistia é ruim, eu acho que ela não faz bem psicologicamente para a nação porque não faz justiça. E mais que isso, ela não só não faz justiça, como ela é alienante, especialmente para a minha geração, ela é muito alienante.” – Wagner Moura para a Revista Top Magazine – agosto de 2015.

Na minha humilde opinião, essa é a melhor série do Netflix!

 








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