Cães de Aluguel: Foi tão bom para você quanto foi para mim?

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Ano passado (sim olha a minha cara de pau) eu comecei a série “Diretores que amamos” (clique aqui), mas só fiz o post de estreia e fiquei adiando a análise dos filmes. O primeiro diretor escolhido foi o Tarantino, que eu amo loucamente. No entanto, resolvi criar vergonha na cara e ressuscitar a série. Espero que gostem 🙂

Quentin Tarantino foi aclamado nos anos 90 como o novo messias descolado do cinema, e tudo começou com Cães de Aluguel coproduzido por Harvey Keitel, em 1992 no Sundance Film Festival.

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Cães de Aluguel é uma grande brincadeira sangrenta de Tarantino ao estilo gangsteres, influenciada por Caminhos Perigosos e Os Bons Companheiros de Scorsese, e pelo Grande Golpe de Kubrick, que tem a violência como grande obra-prima e motivo de êxtase.

Já na cena de abertura o filme mostra a que veio, Tarantino interpretando Mr. Brown narra uma análise semiótica de Like a Virgin da Madonna, inaugurando uma série de diálogos inspirados e irônicos que vão da liberdade sexual feminina a ética em dar gorjetas para uma garçonete.

“Jesus, essas mulheres não estão passando fome, elas ganham salário mínimo”, se opõe o Mr. Pink (Steve Buscemi) quando seus colegas tentam fazê-lo sentir-se envergonhado e deixar dinheiro na mesa como todo mundo. Ao ritmo chiclete de Super Sounds of the Seventies, de K-Billy Radio, o grupo vai para a rua. Vestido idênticos com ternos pretos esguios, gravatas estreitas e camisas brancas.

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O filme se estrutura em flashbacks que misturam o pandemônio após um assalto frustrado, com a apresentação dos personagens e detalhes dos estágios de planejamento. O chefão do crime Laurence Tierney e seu filho, Chris Penn, recrutam seis profissionais que recebem nomes falsos identificados por cores, para que nenhum deles reconheça o outro, dentre eles há um policial disfarçado que causa todo o tumulto na hora do assalto, inclusive alguns assassinatos.

Os que sobraram se reúnem no ponto de encontro, um armazém abandonado. Mr. White (Harvey Keitel) leva seu companheiro ferido e policial disfarçado Mr. Orange (Tim Roth) para o armazém, onde Mr. Pink (Steve Buscemi) logo se junta a eles, obcecado em permanecer profissional e descobrir quem foi o traidor. Depois chega o psicótico Mr. Blonde (Michael Madsen) com um policial refém.

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A partir daí os diálogos giram em torno da honra e do profissionalismo entre bandidos. Em um certo momento Mr. White e Mr. Pink deixam Mr. Blonde sozinho com o policial refém e com o ferido Mr. Orange, então começa a tão aclamada cena que fez com que vários espectadores saíssem da sala de cinema no Sundance Film Festival.

Mr. Blonde, ao som de Stuck in the Middle With You, dança e canta enquanto tortura e mutila com uma gilete o refém. A cena foi gravada em dez minutos, cada minuto de agonia para o policial é um minuto para o espectador. Não sei se a percepção de violência mudou dos anos 90 para cá com a geração Jogos Mortais, mas essa cena me frustrou, o tão aguardado momento de horror com a tortura não arrancou uma virada de olhos minha, a única sensação de horror foi o tédio. O único momento em que a cena finalmente atinge o seu potencial é quando Mr. Blonde olha para a sua vítima aterrorizada e mutilada e diz “Foi tão bom para você quanto foi para mim?”.

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A violência de Cães de Aluguel não é gratuita, tudo no filme tem um propósito, Tarantino zomba e provoca seu público o tempo todo, que experimenta o êxtase através do sangue e do sarcasmo, e a agonia enquanto Mr. Orange sangra até a morte.

Cães de Aluguel funde masculinidade, violência e submundo. A versão de masculinidade de Tarantino é profundamente regressiva, especialmente baseada na cultura de massa dos anos 70 de sua própria infância. O que torna o filme tão dos anos 90 é que ele gira em torno do que foi reprimido na versão da masculinidade dos anos 70, um medo paranoico e homofóbico do outro que explode em discursos de ódio, em chutes e explosões, em balas e lâminas. É um filme extremamente insular, as mulheres não tem mais de 30 segundos na tela, há zero personagens negros, mas ainda sim, nenhum minuto se passa sem uma referência (racista) aos negros, a estupro na cadeia (sêmen negro em bunda branca), a ameaças de castração das mulheres “fálicas” como Madonna ou o ícone dos anos 70 Pam Grier.

Os personagens são racistas, machistas e homofóbicos, mas não com o propósito de incentivar ou enaltecer esses absurdos (na minha humilde opinião), os outros filmes do Tarantino tem personagens femininos fortes e maravilhosos.

A informação se acumula fora da ordem cronológica, e a preparação e os desdobramentos do assalto vão sendo revelados em flashbacks através dos pontos de vista dos participantes. Curtindo a ironia dramática, Tarantino revela a identidade do policial infiltrado na metade do filme, colocando a plateia em seu ponto de vista e no desespero da sua posição. Em seu mundo, o conhecimento não o leva a lugar algum, quando o gelado Mr. Blonde (Michael Madsen) chega com um jovem policial que ele sequestrou durante a fuga, a violência se agrava. No blecaute final, o armazém está carregado de corpos. É uma comédia de humor controverso, que tanto se vangloria quanto ridiculariza seu gênero e seus personagens.

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